Saúde

Exame de sangue antecipa risco de recaída em câncer colorretal e pode redefinir uso de quimioterapia
Estudo europeu com 120 pacientes mostra que DNA tumoral circulante, medido antes e depois da cirurgia, prevê recidiva e sobrevida — e pode evitar tratamentos desnecessários
Por Laercio Damasceno - 29/03/2026


Imagem: Reprodução


Um exame de sangue capaz de detectar vestígios microscópicos de câncer antes mesmo de a doença reaparecer pode transformar a forma como médicos tratam pacientes com metástases hepáticas de câncer colorretal. Publicado neste sábado (28), na revista eBioMedicine, do grupo The Lancet, um estudo conduzido por pesquisadores do Erasmus University Medical Center, na Holanda, indica que níveis de DNA tumoral circulante (ctDNA) no sangue têm valor prognóstico robusto — antes e depois da cirurgia — e podem orientar decisões sobre quimioterapia.

A pesquisa analisou 120 pacientes com metástases hepáticas ressecáveis — um grupo que, apesar de elegível para cirurgia com intenção curativa, enfrenta um cenário desafiador: cerca de metade terá recidiva da doença em até um ano.

“Demonstramos que a quantidade contínua de ctDNA, estimada por metilação do DNA, é um marcador prognóstico independente tanto para a sobrevida livre de recidiva quanto para a sobrevida global”, afirmam os autores, liderados por Stavros Makrodimitris e Saskia M. Wilting.

Um marcador invisível no sangue

O ctDNA é formado por fragmentos de material genético liberados por células tumorais na corrente sanguínea. Nos últimos anos, tornou-se um dos principais focos da chamada “biópsia líquida”, uma abordagem menos invasiva que promete substituir ou complementar exames tradicionais.

( A ) Visão geral das amostras de pacientes. ( B ) Cronograma da coleta de amostras clínicas e acompanhamento. (CRLM: metástases hepáticas colorretais, RFS: sobrevida livre de recorrência, OS: sobrevida global). Criado no BioRender. Oncology, M. (2025). ( C ) Esquema da abordagem para estimativa da fração tumoral usando metilação do DNA ( TFE-ME ) e variantes do número de cópias ( TFE-CNV ). (cfDNA: DNA livre de células, DMRs: regiões diferencialmente metiladas). Criado no BioRender. Oncology, M. (2025).

No estudo holandês, os cientistas foram além das técnicas convencionais baseadas em mutações genéticas. Eles utilizaram um método que combina análise de metilação do DNA — modificações químicas que regulam a expressão gênica — com variações no número de cópias do genoma.

Essa estratégia permitiu estimar com maior precisão a fração de DNA tumoral presente no sangue, mesmo em pacientes que não apresentavam mutações detectáveis por métodos tradicionais.

“Os níveis de ctDNA refletiram características do tumor, como tamanho, e mostraram forte correlação com outras medidas moleculares”, descreve o artigo.

Resultados que antecipam o futuro clínico

Os dados revelam que níveis elevados de ctDNA antes da cirurgia já indicam pior prognóstico. A cada aumento na carga tumoral detectada, o risco de recidiva e morte crescia significativamente, mesmo após ajuste para fatores clínicos como idade, sexo e estágio da doença.

Em termos estatísticos, o ctDNA pré-operatório apresentou associação significativa com sobrevida livre de recidiva (HR = 1,20; p = 0,019) e sobrevida global (HR = 1,31; p = 0,002).

Após a cirurgia, pacientes com níveis elevados de ctDNA também tiveram maior probabilidade de recidiva precoce (p = 0,03), embora o impacto sobre a sobrevida global não tenha sido estatisticamente significativo nesse momento.

Na prática, isso significa que o exame pode identificar, já no início do tratamento, quais pacientes têm maior risco de recaída — algo que hoje permanece incerto.

Um problema clínico sem solução clara

O tratamento das metástases hepáticas do câncer colorretal é marcado por uma contradição. Embora a cirurgia ofereça chance de cura, o uso de quimioterapia perioperatória ainda é controverso.

Ensaios clínicos mostram que a quimioterapia pode retardar a recidiva, mas não aumenta a sobrevida global. Ao mesmo tempo, os efeitos colaterais — que vão de fadiga a danos permanentes — são relevantes.

Sem biomarcadores confiáveis, diretrizes clínicas frequentemente recomendam tratar todos os pacientes — ou nenhum.

“Isso resulta em sobretratamento ou subtratamento”, apontam os autores.

Uma ferramenta para personalizar decisões

O principal avanço do estudo está na possibilidade de usar o ctDNA como guia terapêutico. Pacientes com altos níveis do marcador poderiam se beneficiar de quimioterapia antes ou depois da cirurgia, enquanto aqueles com baixo risco poderiam evitar o tratamento.

A análise foi feita em uma coorte homogênea — pacientes que não receberam quimioterapia antes ou depois da cirurgia — o que fortalece a evidência de que o ctDNA, por si só, tem valor prognóstico.

“Além de detectar doença residual após a cirurgia, o ctDNA permite identificar, já no início, pacientes com pior prognóstico que podem se beneficiar de tratamento adicional”, destacam os pesquisadores.


Impacto global e desafios

O câncer colorretal é o terceiro mais incidente no mundo e o segundo em mortalidade. Cerca de 20% dos pacientes já apresentam metástases hepáticas no diagnóstico, e outros 20% a 30% desenvolvem a condição ao longo da doença.

Nesse contexto, a introdução de um marcador acessível e não invasivo pode ter impacto direto em sistemas de saúde, ao reduzir custos com tratamentos desnecessários e melhorar resultados clínicos.

No entanto, desafios permanecem. Testes baseados em ctDNA ainda precisam ser padronizados, barateados e validados em estudos maiores antes de sua incorporação rotineira.

Os próprios autores destacam a necessidade de desenvolver métodos “universais e acessíveis” que permitam a aplicação em larga escala.

O futuro da oncologia de precisão

O estudo se insere em uma tendência mais ampla da medicina: a transição de tratamentos padronizados para estratégias personalizadas, baseadas em biomarcadores.

Se confirmados em novos ensaios clínicos, os achados podem levar a uma mudança de paradigma no tratamento das metástases hepáticas do câncer colorretal — substituindo decisões generalizadas por abordagens guiadas por evidências moleculares individuais.

Em última análise, trata-se de uma promessa central da oncologia contemporânea: tratar melhor, tratando menos — e no momento certo.


Referência
Valor prognóstico dos níveis de DNA tumoral circulante perioperatório estimados pela metilação do DNA livre de células em pacientes com metástases hepáticas colorretais ressecáveis. eBioMedicinaVol. 126 106236 Publicado: 28 de março de 2026. Stavros Makrodimi, trisLissa Wullaert, Daan Hazelaar, Teoman De?er, Ruben G. Boers, Marco A. van de Wiele outros. DOI: 10.1016/j.ebiom.2026.106236

 

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